domingo, 14 de junho de 2009

Marguerite Duras



por Marcelo Miranda

Que Marguerite Duras foi uma escritora de prestígio, por livros como Barragem Contra o Pacífico (1950) e O Amante (1984), muita gente sabe. Que ela escreveu o roteiro de Hiroshima, Mon Amour (1959), primeiro longa-metragem do diretor francês Alain Resnais, outros tantos também. Mas que Duras foi também diretora de cinema, quase ninguém tem conhecimento. E sua obra não é modesta: foram 19 filmes realizados entre os anos 60, 70 e 80.

Um pouco dessa produção poderá ser conhecida a partir de hoje (segunda-feira, 15 de junho) em Belo Horizonte, na mostra "Marguerite Duras: Escrever Imagens", em cartaz no Cine Humberto Mauro até o próximo domingo. Serão nove trabalhos de Duras - quatro longas, três médias e dois curtas. Trata-se de uma versão compacta de uma retrospectiva quase completa promovida no Rio de Janeiro em abril, com curadoria do pesquisador Maurício Ayer. "Duras tem uma relação forte com o cinema desde a infância", conta ele. Nascida na antiga Indochina (hoje Vietnã) em 1914, a futura escritora e cineasta teve uma juventude sofrida. "A única diversão que ela e os irmãos tinham era ir ao cinema", revela Ayer.

Duras só se mudou para Paris aos 18 anos, para concluir os estudos. Foi lá que tomou contato com toda a efervescência cultura francesa - inclusive a cinematográfica. "Ela foi convidada pelo próprio Resnais para escrever Hiroshima, Mon Amour, e nunca gostou das adaptações que faziam de livros dela", comenta o curador.

Foi a insatisfação com a produção mais tradicional na França o catalisador da estreia de Duras na direção, em 1965. Nas palavras dela: "Como tenho uma espécie de desgosto em relação ao cinema que tem sido feito (...), eu queria retomar o cinema do zero, numa gramática bem primitiva, bem simples, bem primária: recomeçar tudo".

É em cima desse olhar de recomeço que vai se sustentar a trajetória de Duras atrás das câmeras. "Ela nunca quis fazer carreira, mas chegou um momento em que precisava usar os recursos audiovisuais para expressar o que buscava", diz Maurício Ayer. O cinema de Duras será todo feito em camadas (vozes, imagem, palavras, sons) sobrepostas e nem sempre simultâneas. "Ela dissocia os sons da imagem e estabelece relações muito mais complexas, não só na narração de histórias, mas especialmente na exploração de espaços", explica o curador.

Ayer diz que Duras "enxerga o cinema como o fim da imaginação, por explicitar o que se conta. Portanto, ela buscou com seus filmes fazer da imagem uma coisa que permitisse ao espectador imaginar o que via."

Marguerite Duras era fã do diretor francês Robert Bresson (Pickpocket), o que ajuda a explicar o ascetismo de seus filmes. Mas, para além de referências, o curador Maurício Ayer não vê paralelos de Duras em relação a outros cineastas, muito pela forma única como ela imbrica cinema, literatura e teatro. “As relações são múltiplas e, em cada filme, vão se reconfigurando”, diz. Ele aponta India Song (cuja foto abre este post) como a súmula do cinema de Duras.

Confira a programação completa da mostra aqui.

* Matéria originalmente publicada em O TEMPO no dia 15.6.2009

2 comentários:

Beck disse...

"India Song", "Seu nome de Veneza em Calcutá deserta" e "A mulher do Ganges" são maravilhosos! Mas vale conferir a mostra toda! Muita coisa boa mesmo! Experiência rara, se tratando de 35mm!

Marcelo Miranda disse...

Oi, Beck. A mostra em BH é compacta. Das suas três indicações, apenas INDIA SONG vai passar por aqui. E será conferido! Obrigado e escreva sempre.