sábado, 6 de fevereiro de 2010

Cao Guimarães



por Marcelo Miranda

O circuito comercial de cinema tem dessas distorções. Um cineasta como Cao Guimarães, que soma cinco longas-metragens e "uns 20 curtas", segundo o próprio, tem visibilidade zero entre o público não frequentador de festivais. Dono de estilo único, expressivo, desafiador, sem se enquadrar em gêneros nem formatos, o mineiro Cao é mais conhecido pelo nome do que pela obra. Muita gente já ouviu falar dele, mas pouquíssimos assistiram a seus filmes.

Isso está para mudar - só um tanto, mas já é um começo. "A Alma do Osso" (2004), terceiro longa de Cao, vai ser lançado em salas de cinema de, no mínimo, sete capitais brasileiras, a partir de março. O filme teve pré-estreia na 13ª Mostra de Tiradentes, seis anos depois de ter sido feito. "Foi muito interessante voltar a ele tanto tempo depois", comenta o diretor. Satisfeito com a forma como "A Alma do Osso" se apresentou, Cao apenas fez pequenas intervenções nas cores do filme, inserindo um tom "mercuro cromo" (como ele define) na fotografia.

Quase simultaneamente, a distribuidora Videofilmes vai disponibilizar em DVD o segundo longa de Cao, "Rua de Mão Dupla" (2004). Considerando que "Andarilho" (2007) teve breve passagem no circuito e já existe em DVD pela Lume, são três dos cinco principais trabalhos do diretor possíveis de serem assistidos. Para um realizador acostumado a ter espectadores somente em eventos específicos (Cao levou cada longa a aproximadamente 15 festivais mundo afora), o próprio cineasta se vê diante de um universo novo.

"Meus filmes são um pouco mais herméticos, é verdade, mas me cansa ficar exibindo só para cineastas, artistas plásticos e gente de festival", assume Cao. "Quero saber como bate em outros olhares. Sempre tive vontade disso acontecer, mas o nosso circuito é muito careta e me dá preguiça correr atrás".

É notória a "preguiça" de Cao com as salas exibidoras. Deve-se ao desânimo que ele sente em relação à uniformização na distribuição. "É um circuito direcionado ao lucro. Ninguém vai passar um filme por causa de algum aspecto humanista, mas porque pode dar dinheiro. Quem tem sala de cinema, com raríssimas exceções, quer isso: ganhar muito dinheiro". Para Cao, as salas de shopping refletem o aspecto global da questão. "Não existe personalidade que distingue uma sala da outra. Os filmes são os mesmos, até o saco de pipoca é o mesmo! Se for para fazer assim, eu prefiro ir fabricar pão em série e escala industrial".

Aos 45 anos, Cao tem pouco mais de uma década no cinema. Seu primeiro trabalho, o curta "Otto, Eu Sou um Outro", é de 1998. Antes, Cao era ligado unicamente às artes plásticas - em especial a trabalhos de fotografia, desenvolvidos no período em que morou em Londres, entre 1996 e 1999.

Sempre que se assiste a um filme de Cao Guimarães, a dúvida é imediata: documentário ou ficção? Ainda que seja vinculado ao primeiro, o cineasta nega quaisquer rótulos. “Essas relações não existem mais. Como definir o aspecto real do ficcional?”, questiona. A miscelânea é potencializada pela forma como Cao mostra as figuras que escolhe registrar. Em “A Alma do Osso”, o ermitão Dominguinhos é mostrado nos seus afazeres cotidianos, mas a presença da câmera é uma evidência dos limites do que seja, de fato, o dia a dia daquele homem.

“Andarilho” tem uma das maiores performances do cinema brasileiro recente num dos entrevistados de Cao, espécie de “diabo loiro” das estradas. “É um personagem atuando no papel de si próprio”, diz o diretor. “A ficção, por natureza, é um documentário: ontologicamente, a câmera sempre filma a realidade que se passa diante dela. No caso de um trabalho dito ficcional, está sendo documentado todo aquele processo, que envolve atores, roteiristas e técnicos”. O cineasta defende a multiplicidade do cinema como criação artística. “Separar gêneros cria uma hierarquia muito chata e a ideia de que um pode ser melhor que o outro”.

Novos projetos
Cao Guimarães tem um projeto com o pernambucano Marcelo Gomes (de “Cinema, Aspirinas e Urubus”) de adaptar o conto “O Homem da Multidão”, do escritor norte-americano Edgar Allan Poe. O roteiro está pronto, mas bate sempre “na trave”, segundo o mineiro. “Fomos finalistas num concurso em Sundance (EUA) por três vezes, ficamos em quarto lugar no edital do Filme em Minas que aprovou três propostas...”, enumera. E ironiza, aos risos: “Deus deve estar me protegendo de trabalhar num projeto caracterizado como ficção e com grandes equipes”.

Enquanto não vem “O Homem da Multidão” – que será o fecho de uma intitulada trilogia da solidão, constituída pelos já realizados “A Alma do Osso” e “Andarilho” –, Cao está embrenhado num trabalho sobre a obra do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). O projeto surgiu de um convite do Instituto Itaú Cultural, que convidou alguns cineastas para retratarem de maneiras bem particulares figuras de vários nichos da cultura brasileira.

“Eu avisei que não sei fazer biografia, e eles disseram que buscavam mesmo um olhar poético sobre o artista”, adianta Cao. Ele leu tudo de Leminski na preparação do filme e pretende dar corpo (em imagens e sons) ao complexo “Catatau”, lançado em 1975 e definido pelo curitibano como “prosa experimental”.

Cao comenta: “Nesse livro, o Leminski imagina (o filósofo) René Descartes vindo aos trópicos, na época da invasão holandesa do Maurício de Nassau. É um livro que tem o Descartes aparecendo com uma luneta e um cigarro de maconha na mão, sentado embaixo de uma árvore e enlouquecendo a mente cartesiana dele”. Quem deve surgir em cena reinterpretando a figura de Descartes é o ator baiano João Miguel. O título está definido: “Pororoca Leminski”. “O Paulo era, ele mesmo, uma pororoca mental”, reforça Cao.

A videoarte
Muito se mistura o cinema de Cao Guimarães com a videoarte mineira dos anos 80, especialmente às criações de Éder Santos. De gerações distintas, os dois sequer trabalharam juntos. “Passaram a nos vincular, mas nossos trabalhos não têm absolutamente relação alguma”, diz Cao. “O Éder é de uma fase ligada à linguagem da TV, do videoclipe, das imagens eletrônicas. Eu sou muito mais relacionado com as artes plásticas”.

O próprio Cao é, ele mesmo, vinculado a um “movimento” posterior: o coletivo de realizadores Teia, formado em Belo Horizonte em meados desta década. Com nomes como Helvécio Marins, Pablo Lobato e Marília Rocha, a Teia se assume diretamente influenciada por Cao, ainda que não busque fazer filmes como os dele.

O diálogo, porém, é tão intenso que Cao e Pablo fizeram juntos “Acidente”, filme de bastante sucesso em festivais brasileiros e internacionais. O Grivo, grupo responsável por todo o trabalho sonoro dos filmes de Cao, também é presente nas produções da Teia. As semelhanças e diferenças podem ser notadas em filmes como “Aboio” e “A Falta que me Faz”, de Marília Rocha, e no curta “Trecho”, de Helvécio e Clarissa Campolina.

*Originalmente publicado em O TEMPO no dia 29.1.2010
**Foto de André Fossati

A saga de uma guerra ao terror



por Marcelo Miranda

Nunca o nome de Kathryn Bigelow foi tão escrito ou pronunciado como nos últimos seis meses. Desde quando "Guerra ao Terror", sétimo longa-metragem da carreira da diretora, começou a aparecer em listas de premiações ao redor do mundo (e especialmente nos EUA), o público em geral passou a prestar atenção nessa cineasta de 58 anos cujo trabalho mais conhecido até então era o policial "Caçadores de Emoção" (1992) - menos por seu nome nos créditos do que pela presença de Keanu Reeves e Patrick Swayze no elenco e as constantes repetições televisivas.

Agora Bigelow está nas alturas e todo mundo quer saber sobre ela. "Guerra ao Terror" teve nove indicações ao Oscar 2010 e disputa de igual para igual com o franco favorito da premiação deste ano, a superprodução "Avatar", de James Cameron - ironicamente, ex-marido dela.

Até o momento, o filme já acumula aproximadamente 50 troféus e um incontável número de indicações nas mais diversas premiações mundo afora. O fenômeno de "Guerra ao Terror" é tamanho que, inicialmente lançado apenas em DVD no Brasil, em meados do ano passado, o longa chega às salas de cinema hoje, após um erro estratégico da distribuidora Imagem.

O filme estreou na competição do Festival de Veneza de 2008 e saiu cravejado de más críticas. Lançado no circuito comercial norte-americano em junho de 2009, fracassou nas bilheterias, arrecadando apenas US$ 13 milhões (custou US$ 11 milhões). O caminho natural, na avaliação da Imagem, foi evitar o mesmo desastre no Brasil. Optou-se pela distribuição exclusivamente em DVD, para lojas e locadoras.

De repente, a partir de setembro, "Guerra ao Terror" se tornou onipresente na mídia cinematográfica. Diante da "pressão" e apostando na visibilidade propiciada pelas indicações ao Globo de Ouro e, agora, ao Oscar, a Imagem voltou atrás e decidiu bancar o filme nas salas de exibição.

Essa história ilustra bem a própria trajetória de Kathryn Bigelow. Uma das únicas diretoras no mundo a apostar no chamado cinema de gênero, ela jamais tinha conseguido ser realmente reconhecida pelo seu trabalho. Mesmo "Caçadores de Emoção" se transformou numa diversão ligeira de Sessão da Tarde, o que nunca permitiu que se refletisse devidamente a força que o filme possui ainda hoje.

O mesmo se pode dizer de outros títulos da cineasta, desde o primeiro, "Quando Chega a Escuridão" (1987), mistura de terror e erotismo protagonizada por vampiros sanguinários. Bigelow trilhou o caminho independente desde sempre, ainda que conseguisse grande visibilidade na distribuição de seus filmes, muito pela presença de nomes fortes da indústria - Ralph Fiennes na ficção "Estranhos Prazeres" (1995), Harrison Ford em "K-19: The Widowmaker" (2002).

Porém, o fantasma da pouca renda assombra Bigelow incessantemente. Tanto "O Peso da Água" (2000) quanto "K-19", os dois filmes anteriores a "Guerra ao Terror", tiveram pífia arrecadação, tornando a diretora um veneno de bilheteria - o que, na máquina de fazer filmes que é Hollywood, onde o lucro está acima de qualquer outro elemento, faz do realizador imediata "persona non grata".

Bigelow não se intimidou. Foi buscar dinheiro fora dos EUA e conseguiu financiamento da produtora francesa Voltage Pictures para seu filme de guerra ambientado no Iraque de Bush Jr.. A ambição da diretora era filmar em terras iraquianas, mas por óbvias razões de segurança ela montou seu bunker na fronteira da Jordânia (não tão geograficamente longe dos planos iniciais).

O espaço se transforma no território de atuação de um grupo de desarmadores de bombas do Exército dos EUA, personagens centrais de "Guerra ao Terror" (tradução genérica e infeliz para "The Hurt Locker"). Esse grupo de soldados vive sob tensão constante, agravada pela chegada de um novo integrante (vivido por Jeremy Renner, indicado ao Oscar de melhor ator) com instinto autodestrutivo.

CRÍTICA DE GUERRA AO TERROR
Filme questiona limites humanos em campo armado


Dentro de sua estrutura dramática, “Guerra ao Terror” se constitui numa narrativa vertical: a cada nova situação, a busca por uma resolução. A relação que a diretora Kathryn Bigelow estabelece com o espectador é horizontal: a tensão crescente vai acumulando novos elementos que formarão a personalidade do soldado interpretado por Jeremy Renner. Inicialmente, trata-se de um filme sobre um coletivo – o grupo de desarmadores de bombas norte-americano que está a serviço no Iraque. Ao término, tem-se a antissaga de um anti-herói, movimento cíclico que o filme faz e o qual só nos é revelado nos instantes finais.

Essa confusão entre o que acontece dentro e fora da imagem é o que de mais rico “Guerra ao Terror” possui – e também de mais complexo. Não se trata de um filme de guerra convencional. O mais incômodo, talvez, é que, a princípio, nem parece um projeto antibelicista, tamanha a secura com que Bigelow trata a imagem e os desdobramentos do enredo.

Esse olhar duro e destituído de sentimentalismo sobre uma realidade tão violenta como a invasão de um país por uma potência estrangeira nunca se traveste de discurso. Bigelow acredita que o choque está naturalmente naquilo que ela busca captar. O trabalho suicida com o qual os personagens precisam lidar é suficientemente violento para que a diretora possa se eximir de ideologias.

É um filme pronto, bem resolvido, que está na tela sem buscar totalizações fora dela. O cinema é seu espaço de excelência, assim como sempre o foi na obra de Bigelow. Por lidar com um universo tão palpável e tabu – como é a guerra no Iraque para os norte-americanos –, a diretora sofreu as consequências, vendo seu filme naufragar em más bilheterias e incompreensão de quem buscava, em “Guerra ao Terror”, mais um trabalho de cunho pacifista.

Esperar de Bigelow qualquer tentativa de demagogia ou sensibilização gratuita é não aderir a seu projeto artístico mais estimulante. Como no cinema de Howard Hawks (especialmente “Hatari!” e “Onde Começa o Inferno”, aos quais “Guerra ao Terror” parece emular a todo instante), a ação da cineasta se concentra em instantes, sempre na busca pela mais intensa valorização da cena e da encenação. De Samuel Fuller (“Agonia e Glória”, para ficar dentro do mesmo universo da guerra), Bigelow herda a selvageria de um mundo niilista, em que o inimigo à frente, ainda que tão humano como seu antagonista, não pode ser poupado se as circunstâncias assim o exigirem.

Por mais que os escafandros usados pelos soldados para se protegerem os tornem verdadeiros super-homens, a armadura só faz sentido na medida em que vemos pessoas de carne e osso ali dentro – daí a força de significado de quando o personagem de Renner retira a roupa e diz que, se for para morrer, que ele o faça “confortavelmente”.

É esse tipo de ato que “Guerra ao Terror” vai problematizar: muito mais que suportar a adrenalina de um conflito armado, há de se aceitá-la como inerente à própria natureza humana, mesmo que não haja palavras para explicar isso. Está tudo na imagem.

*Originalmente publicado em O TEMPO no dia 5.2.2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Invictus e os hinos nacionais

por Leo Cunha

Para um cineasta com tamanha cultura musical, como Clint Eastwood, parece estranha a opção por certas músicas de fundo em Invicuts. A melosa “Color blind”, por exemplo, quase destrói uma ótima cena.

Em compensação, a seqüência do hino nacional no jogo de rugby é um dos pontos altos do filme, momento chave do (bom) uso político do esporte e da arte. Mas, enquanto esta cena de Invictus não aparece no You Tube, vale a pena relembrar outras memoráveis, centradas no hino nacional.

Para começar, a mais que clássica cena em que a Marselhesa se sobrepõe à música nazista, em Casablanca. Símbolo da resistência, é capaz de arrepiar até o espectador que já assistiu mil vezes ao filme.

(Se o embed estiver bloqueado, você pode assistir ao trecho seguindo este link )

Outra cena interessante é a do hino soviético, que antecede a grande luta de Rocky 4. Ela coaduna a música (que naquele momento histórico representava o hino inimigo, para os americanos) com imagens que – pela iluminação, enquadramentos e movimentos de câmera –remetem ao cinema russo e seus cartazes do início do século XX).


Partindo para a comédia, vale lembrar Borat se intrometendo num jogo de “segunda divisão” do beisebol, no interiorzão dos EUA, e cantando um hino totalmente fake do Casaquistão, com direito a frases como “nossas prostitutas são as mais limpas do mundo, fora, é claro, as do Turcomenistão” e “venha agarrar o pênis do nosso poderoso líder”.


E, como não encontrei no You Tube a cena do hino em Duck Soup, dos Irmãos Marx, termino este texto com o delicioso deboche do tenente Frank Drebin (Leslie Nielsen), em Corra que a polícia vem aí. Depois de nocautear o tenor que cantaria o hino na final do beisebol, Drebin vai até o centro do estádio e simplesmente destrói o hino americano, para espanto de seus colegas e dos vilões.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Mostra de Tiradentes (7): curtas políticos de Recife



por Marcelo Miranda


O pernambucano Sergio Oliveira está com dois filmes em curta-metragem na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Ambos são profundamente políticos, ainda que não tematizem a política no sentido dos conchavos de poder. "Epox" e "Faço de Mim o que Quero" (este, codirigido com Petrônio Lorena) focam uma marginalidade quase invisível. No primeiro, hippies do século XXI; no outro, a cena musical brega de Recife e toda a fauna de gente que a envolve.

"Eu faço cinema porque vejo coisas. É isso que me atrai e me incentiva", atesta o diretor. Sergio Oliveira tem ainda no currículo os curtas "Schenberguianas" (2006) e "Nação Mulambo" (2007). Ele ainda é marido de Renata Pinheiro, roteirista de seus dois curtas recentes e diretora da ficção "Superbarroco" (2008), um dos trabalhos mais premiados em festivais.

Em todos os projetos de Sergio, são definidos olhares destituídos de valores pré-estabelecidos, no intuito de se entregarem a um mergulho completo nos universos escolhidos. "É a minha visão assumida. Não sigo fórmulas, não pergunto muita coisa e acabo por me identificar e encantar totalmente com aquelas pessoas", conta.

Em "Epox", Sergio Oliveira registra as andanças de um grupo de hippies. Mais que isso, ele os deixa falar e os ouve, mostrando aspectos insuspeitos de seus mundos (o uso entre eles de comunicadores virtuais, como o MSN, talvez seja o mais peculiar), permitindo que o afeto - inclusive familiar - impregne as imagens.

"Faço de Mim o que Quero" é mais radical. Um filme grosseiro, sujo, feio e sublime, sobre pessoas que, em ambientes apressadamente considerados degradantes e sem valoração, se sobressaem pela pura alegria na produção e consumo de um tipo de cultura cuja existência tenta ser - ou mesmo problematizada - pelas classes ditas pensantes. Não à toa, o curta, exibido no Festival de Brasília em novembro, provocou evidente incômodo no público preponderantemente formado por estudantes da UnB. Outro fato curioso foi que uma profissional convidada por Sergio para integrar a equipe de produção do filme recusou a proposta alegando não gostar de música brega.

"A nossa classe média é entrincheirada. Só consegui realizar o ‘Faço de Mim o que Quero’ porque cheguei sem tentar impor meus valores", define Sergio. Para ele, tanto os temas que escolhe quanto a forma como os leva à tela são, preponderantemente, políticas. "Eu não mostro poderosos. Mostro pessoas da margem, ao mesmo tempo invisíveis, porque ninguém lhes dá atenção, e também onipresentes dentro da paisagem urbana".

Ainda que apresente segmentos populares da sociedade, especialmente em "Faço de Mim o que Quero", Sergio crê ter realizado "filmes-cabeça". "Não tenho tido um retorno realmente popular", comenta, sem se lamentar. Este comentário de Sergio foi feito horas antes dele exibir o novo filme na praça central de Tiradentes (a apresentação estava prevista para a noite de ontem). Talvez o diretor tenha pagado o preço por mostrar verdades demais. E ele não está incomodado com isso.

*Publicado originalmente em O TEMPO no dia 28.1.2010
**Na foto, cena de "Faço de Mim o Que Quero"

Mostra de Tiradentes (6): "O Divino, de Repente"



por Marcelo Miranda


“O Divino, de Repente”, curta-metragem do diretor paulista Fábio Yamaji e exibido na segunda-feira, é um pequeno fenômeno. Estreou em julho do ano passado, no festival Anima Mundi, em São Paulo. Saiu com o troféu de melhor filme brasileiro do evento. E, dali em diante, já percorreu aproximadamente 30 outros festivais.

É o primeiro curta totalmente autoral de Yamaji, após dez anos de trabalhos em animação, making of e montagem. “O Divino, de Repente” tornou-se, para ele, uma forma inventiva de experimentar técnicas dentro de um mesmo projeto. O espectador assiste, em pouco mais de seis minutos, o uso de desenhos a mão, rotoscopia, stop motion e pixilation.

Tudo para embalar os repentes de Divino, alagoano criado na Paraíba e com quem Yamaji travou contato ao trabalharem no mesmo estúdio. Fascinado por aquela figura, de quem hoje é amigo pessoal, o animador decidiu registrar alguns de seus repentes e “deixá-lo falar de si mesmo”.

O diretor define “O Divino, de Repente”, como “um documentário com ficção experimental”. Divertido e sempre bem recebido, o filme ainda mudou a vida do próprio personagem-título. “Combinei de dividir com o Divino todo prêmio em dinheiro que o filme ganhar”, conta Yamaji. Como o curta é um sucesso por onde passa, Divino já conseguiu até mesmo voltar (de avião) à Paraíba, onde não ia há anos.

*Publicado em O TEMPO no dia 27.1.2010
**Foto de Alexandre C. Mota

Mostra de Tiradentes (5): "Terras"



por Marcelo Miranda


Uma tríplice fronteira dentro do coração de um país é uma realidade bastante distinta ao que se está acostumado no cotidiano das metrópoles. "Terras", primeiro longa-metragem da diretora Maya Da-rin e exibido na noite de segunda-feira na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, tem o propósito de transformar em imagens de cinema os sentimentos de um povo, evitando se tornar discurso sociológico para ser, essencialmente, o testemunho de um fluxo.

"Terras" registra a tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru a partir de duas pequenas cidades gêmeas, a colombiana Letícia (30 mil habitantes) e a brasileira Tabatinga (48 mil) - ambas rodeadas pela vegetação da floresta amazônica, numa espécie de "ilha urbana", como a sinopse do filme define. Maya Da-rin morou por dois meses na região com o exclusivo intuito de absorver aquela realidade. "Foi um período de pesquisa, no qual a ideia era simplesmente estar ali e sentir o ambiente e o ritmo do lugar", conta a diretora.

A palavra-chave do trabalho de Maya era fronteira. Não apenas a noção dicionarizada do termo (limite ou linha divisória), mas um sentido ainda maior e, por vezes, afetivo. "É a fronteira como espaço de transição e de indefinição, e as formas como as pessoas habitam esse espaço", afirma ela. Maya, no filme, ouve taxistas, barqueiros, índios; mostra gente trabalhando, andando, dormindo, dançando; e expressa a textura do chão, das pedras e da natureza para dar escopo ao que rodeia esses detalhes e tornar mais vívida a experiência de se estar presente ali.

"Eu queria trabalhar num lugar de divisão territorial e perceber como essa fronteira é presente na vida daquela gente, tanto no sentido físico mesmo, de delimitação, até uma noção abstrata desse conceito". Os índios, para ela, representam exatamente um tipo de não-lugar que parece caracterizar a ilha urbana. "Eles estão num local intermediário. Não são reconhecidos como índios, nem são brancos. Não são ninguém naquele mundo".

Por mais claras que fossem as intenções de Maya Da-rin – o que também acarreta o risco do olhar etnocêntrico ou meramente curioso sobre o objeto documentado –, a própria diretora percebeu que suas pré-concepções seriam sabotadas pelo choque cultural. “Tínhamos ideias anteriores à viagem, inclusive em questões de linguagem, limites do enquadramento...”, enumera. “Ao chegarmos lá, percebi que nem sempre esses pensamentos anteriores eram acolhidos pelo que a gente vivia e filmava”.

A cineasta transformou os choques em questões do próprio filme, quando emergiu a noção de “observação participativa”, em que a equipe de Maya se colocava como parte do que tentava registrar. “Era muito forte como éramos colocados, o tempo todo, numa zona de crise”.

Após a experiência de “Terras” – e de um filme anterior, “Margem” (2008), também exibido em Tiradentes, há dois anos, e surgido a partir da mesma viagem de Maya –, a cineasta brinca: “Não quero mais saber da Amazônia!”. Mas logo constata que os significados de fronteira e limite são elementos que a instigam naturalmente. “Estou escrevendo o roteiro de um curta-metragem de ficção, e essas noções estão todas lá novamente”.

*Originalmente publicado em O TEMPO no dia 27.1.2010

**Foto de Alexandre C. Mota

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Zelda Rubinstein (1933-2010)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

13ª Mostra de Cinema de Tiradentes - atualizações

A cobertura (clique aqui para acessá-la) segue firme. Já estão no ar para serem conferidos textos dos filmes: Curtas Mostra Panorama – séries 1, 2 e 3; Curtas Mostra Foco – séries 1 e 2; Sessão de Curtas Karim Aïnouz e os longas “Natimorto”, “Morro do Céu”, “Os Inquilinos”, “Cabeça a Prêmio”, dentre outros.

Ainda hoje entrarão no ar os textos: Curtas Cena Mineira; Curtas Mostra Panorama – série 4; Curtas Mostra Foco – séries 3 e 4 e os longas “Terras” e “Estrada para Ythaca”.

Sigam conosco e aqui no Blog com as atualizações e textos de Marcelo Miranda para o jornal O Tempo.

Abraços,

Equipe Filmes Polvo

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Mostra de Tiradentes (4): Natimorto e Lourenço Mutarelli



por Marcelo Miranda

Lourenço Mutarelli se perturba cada vez mais em ver sua interpretação de um obcecado caça-talentos no longa-metragem "Natimorto". Dirigido por Paulo Machline a partir de um livro do próprio Mutarelli, o filme foi exibido na noite de domingo, na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a uma plateia de centenas de espectadores no Cine Tenda.

"É uma sensação horrível", diz o escritor paulista, com seu jeito ao mesmo tempo tímido e simpático, barba meio desgrenhada, óculos escuros, olhar algo desconfiado. "Quando estamos no set, não há exposição. É um grupo pequeno de profissionais, todos trabalhando a favor do filme. A dificuldade, para mim, vem agora, com as sessões".

"Natimorto", também com Simone Spoladore e Betty Gofman no elenco, teve sua primeira apresentação em setembro do ano passado, no Festival do Rio. Recentemente visto em pequenos papéis no cinema ("O Cheiro do Ralo", em 2007, e "É Proibido Fumar", em 2009) e na TV (o telefilme "Para Aceitá-la Continue na Linha", também 2009), Mutarelli declinou de dois convites para novos trabalhos de ator após o impacto de se ver como protagonista na produção de Machline.

Ele conta ter uma relação bem mais desprendida com a literatura do que com a atuação. "Não escrevo tentando fazer alguma obra-prima, mas pela experiência. Na hora de ser ator, como não é o meu trabalho, fico realmente incomodado ao assistir".

Ao menos uma decisão drástica Mutarelli tomou: não vai atuar em outras adaptações de trabalhos seus ("O Cheiro do Ralo", no qual fazia um segurança, é originário de seu primeiro romance). "Pode parecer que eu estou controlando o que fazem, o que não é verdade de forma alguma", comenta. E garante: "Vou aceitar no máximo alguma ponta hitchcockiana". O diretor inglês Alfred Hitchcock se notabilizou por aparecer rapidamente e de soslaio em quase todos os seus 53 filmes.

Ironicamente, a definição de Mutarelli para protagonizar "Natimorto" surgiu a partir de uma sugestão dele mesmo. Inicialmente, o escolhido era Marco Ricca. O ator não pôde assumir o papel por estar, à época, no meio das filmagens de seu primeiro longa como diretor, "Cabeça a Prêmio" (exibido em Tiradentes no último sábado). Em seguida, tentou-se Matheus Nachtergaele, igualmente comprometido com seu filme, "A Festa da Menina Morta", selecionado para uma mostra paralela no Festival de Cannes em 2008.

"Cogitaram um galã, mas eu achava importante que o personagem fosse vivido por alguém feio", relembra Mutarelli, em tom sério e sem um pingo de ironia. "Pedi ao Paulo para fazer um teste e acabei assumindo o papel".

"O Natimorto: Um Musical Silencioso" foi o segundo romance de Lourenço Mutarelli, lançado pela primeira vez em 2004. O escritor conta não ter interferido no processo de transposição do texto original para a tela, feito pelo roteirista André Pinho. Em 2007, o mesmo livro originou uma peça teatral de Mário Bortolotto.

Aos 45 anos e notabilizado inicialmente por seu trabalho nos quadrinhos, Lourenço Mutarelli enveredou nos romances a partir de "O Cheiro do Ralo", em 2002. Desde então, fez sucesso também com outros títulos ("O Natimorto", "A Arte de Produzir Efeito sem Causa" e "Miguel e os Demônios") e já tem dois novos livros semiprontos.

*Originalmente publicado em O TEMPO no dia 26.1.2010
**Foto de Leonardo Lara

Mostra de Tiradentes (3): aplausos deslocados

por Marcelo Miranda

Reza o protocolo dos festivais de cinema que, após a exibição de um filme, o público deve aplaudir. Na Mostra de Cinema de Tiradentes deste ano, os aplausos têm soado estranhos. Nem tanto por gostos ou desgostos com cada título exibido, mas pelo tom desses filmes. Como celebrar com palmas os finais tão desesperançados de “Cabeça a Prêmio” e “Os Inquilinos”? Ou apocalípticos como o de “Natimorto”? Ou mesmo depressivos, como em “Os Famosos e os Duendes da Morte”? Todos exibidos no final de semana passado em Tiradentes, estes trabalhos, tão distintos entre si, guardam como semelhança olhares bastante duros.

“Cabeça a Prêmio”, com direção de Marco Ricca, e “Natimorto”, de Paulo Machline, formam uma dupla capaz de provocar gosto amargo nos espectadores. De construções elaboradas, ambos tratam de universos doentes e pessoas perturbadas com os ambientes externos onde devem conviver e interagir com outras pessoas. Esses personagens são obrigados ora a aguardar a violência que bate e explode à porta (Ricca), ora a lidar com seus próprios terrores internos para, em seguida, devorá-los (Machline). A plateia aplaude timidamente, porque o clima é pesado.

“Os Inquilinos”, de Sérgio Bianchi, apresentou uma típica família suburbana de São Paulo, cujos desencontros com a rotina barulhenta de seus vizinhos cria, no desenrolar do enredo, uma tensão constante e crescente que parece jamais encontrar, de fato, alguma forma palpável. Tudo pode acontecer, assim como nada também pode acontecer – e, da espera entre um extremo e outro, brota a angústia.

“Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, talvez o mais introvertido dos quatro filmes, lida com as dúvidas internas de um adolescente. Entre devaneios e dores infligidas por um sufocamento do meio onde ele transita, o filme deixa em aberto as várias (e sofridas) possibilidades daquele jovem. Palmas, sim; tranquilidade, nem de longe.

*Originalmente publicado em O TEMPO no dia 26.1.2010

Mostra de Tiradentes (2): Cabeça a Prêmio e Os Inquilinos

por Marcelo Miranda

Há uma tendência cada vez mais presente na atual produção do cinema brasileiro, que são filmes sobre a espera da violência. Se já era algo meio insinuado no seminal "O Invasor" (2001), a perturbação dessa espera se tornou força motor de, entre outros, "Cafuné" (2005), "No Meu Lugar" (2009) e de dois trabalhos exibidos na noite de sábado na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Tanto "Cabeça a Prêmio", estreia na direção do ator Marco Ricca, quanto "Os Inquilinos", novo projeto do veterano Sérgio Bianchi, tematizam (e problematizam) os medos oriundos das potenciais explosões de sangue que insistem em pipocar nos programas e jornais sensacionalistas. Essa "cultura do aguardo", às vezes, pode enlouquecer tanto ou mais que os estouros explicitados em "Tropa de Elite" (2007) ou "Cidade de Deus" (2002).

"O cinema é uma resposta da sociedade. E, hoje, do que vamos falar?", questiona Ricca, em conversa com o Magazine. "As nossas pequenas dores estão se transformando em explosões, e o cinema retrata um momento da reflexão humana, como, aliás, deve ser toda atividade do pensamento".

Especificamente sobre "Cabeça a Prêmio", adaptado de um romance do escritor paulista Marçal Aquino, Ricca diz ter encontrado ali o tipo de coisa que lhe interessava falar. "Seria inviável transpor o livro como ele realmente é, por suas cenas episódicas e o mosaico enorme de personagens. Resolvemos narrar a história mais linearmente, o que nos ajudou a aprofundar as relações humanas e contar o enredo através da profundidade daquelas pessoas".

"Cabeça a Prêmio" acompanha uma família, uma dupla de matadores e um piloto clandestino às voltas com seus conflitos pessoais e profissionais. Todos estão sempre esperando algum novo fato violento acontecer - por mais que sejam, às vezes, figuras ativas, eles dependem das escolhas morais de terceiros. "É um filme que vai contra clichês e psicologismos", define Ricca.

Sérgio Bianchi, em "Os Inquilinos", também destitui seus protagonistas de cargas de psicologia. Interessa ao cineasta radiografar o cotidiano de uma família suburbana obrigada a conviver com vizinhos arruaceiros - a base do filme é um conto homônimo de Vagner Geovane Ferrer. Adepto de um tipo de cinema "sujo", sempre atrás da imagem mais apodrecida da sociedade brasileira (vide "Cronicamente Inviável" e "Quanto Vale ou É por Quilo?"), Bianchi surge agora em tom menor - ainda que igualmente selvagem - em "Os Inquilinos". Em vez da explosão, a espera.

"Isso é uma realidade que ninguém gosta de saber", afirma Bianchi. "Por causa disso, fica-se cobrando que o cineasta sempre acerte, e daí surgem esses filmes que se adaptam às estéticas do cinema estrangeiro de ação e espetacularização. Eu não gosto disso e não quero fazer isso. Não busco prazer na violência". A sensação de opressão que "Os Inquilinos" tenta captar representa, para Bianchi, uma resposta ao velho discurso de que "o planeta precisa ser salvo". "Não adianta querer salvar o planeta. Tem que salvar o ser humano e acabar com esse suicídio coletivo que está acontecendo".

Haiti. Ricca e Bianchi citaram a catástrofe no Haiti para refletirem sobre seus próprios trabalhos. "O Haiti talvez seja o nosso ponto de investigação atualmente, o de olhar aquela massa de gente e enxergar ali seus dramas individuais. São esses dramas que têm nos interessado", diz Ricca.

Já Bianchi volta a seu "Quanto Vale ou É por Quilo", que criticava as ONGs brasileiras. "Olhem para o Haiti. Tem 15 mil ONGs lá que não fizeram nada. Ficam me desqualificando e me chamando de encrenqueiro e provocador, mas eu estava certo".

*Originalmente publicado em O TEMPO no dia 25.1.2010

Mostra de Tiradentes (1): Karim Aïnouz

por Marcelo Miranda

É difícil não se perturbar com a forma como se dá o acúmulo de imagens e sons de "Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo". O filme, fruto de uma parceria dos diretores Karim Aïnouz e Marcelo Gomes e exibido na noite de sexta-feira na abertura da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, abre mão de um corpo para se ater a registros de paisagens, pessoas anônimas e massas populares. Se em "Madame Satã", "O Céu de Suely" (Aïnouz) e "Cinema Aspirinas e Urubus" (Gomes) a presença de uma ou mais figuras físicas bastante evidentes servia de mote a caminhos e embates de poder entre elas e o entorno no qual estavam expostas, neste novo trabalho a dupla faz do protagonista José Renato apenas uma voz que permeia as imagens.

A voz do ator Irandhir Santos, antes de ser uma narração, reflete a alma de uma trajetória errática, que começa muito firme em suas convicções (algo que o título do filme atesta) para ir se tornando, na medida em que a viagem se aprofunda num interior nordestino de forte tactibilidade, menos concreta e muito mais angustiante nas dúvidas e dores desse personagem de corpo ausente.

Karim Aïnouz confirma que "Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo" guarda essa característica de questionar a fisicalidade no cinema. "Tínhamos o desejo de, mais que mostrar um corpo, mostrar uma presença. Isso é fundamental de ser discutido no cinema contemporâneo", disse o diretor, na manhã de ontem, em debate na mostra. "Saímos do campo da moral para entrarmos no campo da ética".

Ele e Marcelo Gomes saíram em 2000 para "uma viagem emocional" pelo sertão, nas palavras de Gomes. "Era a redescoberta e a desconstrução do sertão, numa tentativa de ir contra os clichês desse universo", reforçou. Munida de uma câmera, a dupla percorreu vários quilômetros estrada adentro captando o "isolamento e abandono" (segundo Gomes). Decidiram, recentemente, inserir nesses registros documentais um personagem de ficção - um geólogo imbuído de elementos próximos aos romances de Graciliano Ramos e Euclides da Cunha. Essa figura inventada reflete as próprias crenças e paixões a partir do contato com aquele mundo real captado pelos diretores.

Política. Bem-humorado, Marcelo Gomes relembrou a relação com o amigo Karim ("ele tem a melhor risada que eu conheço"). Contou ainda que sua mãe, que nunca vai ao cinema, assistiu a "Cinema, Aspirinas e Urubus" e "Viajo Porque Preciso..." e lhe perguntou se o filho só sabia fazer filmes com personagens dirigindo veículos e falando pelas estradas. "Eu garanti a ela que meu próximo filme não vai ter ninguém viajando", disse, para risos da plateia no anfiteatro do Centro Cultural Yves Alves.

Na mesa também estavam os atores Lázaro Ramos e Hermila Guedes e o roteirista Felipe Bragança (presentes na fotografia ao lado) - todos eles envolvidos com Aïnouz e Gomes em algum momento de suas carreiras. Invariavelmente pelo poder de seus dois longas anteriores, Aïnouz falou do teor político de ambos. "Fazer cinema, para mim, só faz sentido se for um ato político", afirmou. "No caso desses filmes, trata-se da política da raiva e do enfrentamento".

Gomes complementa, sobre "Viajo Porque Preciso...", que a busca era refletir o isolamento e as questões sociais e existenciais encontradas no sertão do Nordeste brasileiro. "O próprio Irandhir Santos disse que foi seu trabalho mais difícil, porque ele se viu tentando dar emoção a um corpo que não existia".

*Originalmente publicado em O TEMPO no dia 24.1.2010

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Edição 32 e 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Caríssimos,

a equipe Filmes Polvo segue para a sua primeira cobertura do ano: 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes e os convida a acompanharem conosco aqui no blog as atualizações diárias e em nossa seção coberturas (aqui) textos e reflexões sobre os filmes e assuntos que passarem por lá.

Confiram também nossa nova edição no ar:

Edição 32 com os textos:

Story Line: Almodóvar 4 em 1

Cinetoscópio: O cinema de artifícios de Martín Mainoli

Fora de Quadro: Dalva & Herivelto – uma canção de amor: gratas surpresas na ingratidão do tempo e Mon Oncli Antoine: pérola da filmografia quebequense (e mundial)

Plano Sequência: Avatar

Raccord: A Nova Geração da Comédia Americana: Judd Apatow e cia. (Parte 1)

Corte Seco: Ervas Daninhas

Contra-Plongée: Atividade Paranormal: cinco apontamentos

Abraços,

Equipe Filmes Polvo

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Federico Fellini, 90



Federico Fellini
* 20 de janeiro de 1920
+ 31 de outubro de 1993

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Nova Hollywood em livro



por Marcelo Miranda

Em 1968, um filme que quase ninguém viu chamado "Na Mira da Morte" mostrava um velho ator de fitas de terror se recusando a continuar na profissão. A certa altura, ele pega um jornal e lê a manchete sobre um assassino sanguinário solto nas ruas. E diz: "O mundo de hoje teme esse tipo de monstro". O diretor era Peter Bogdanovich, em sua estreia nas telas. Neste filme, ele detectou de forma muito perspicaz a mudança que já se operava no cinema dos EUA e na qual ele mesmo, Bogdanovich, seria figura fundamental.

É dessa época - conhecida como Nova Hollywood - que trata o livro "Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood", do jornalista Peter Biskind, lançado em 1998 e publicado agora pela primeira vez no Brasil. Tendo como marcos "Bonnie e Clyde" (1967), de Arthur Penn, e "Sem Destino" (1969), de Dennis Hopper, e como ocasos "Touro Indomável", de Martin Scorsese, e "O Portal do Paraíso", de Michael Cimino (ambos de 1980), Biskind traça um amplo perfil desses pouco mais de dez anos, permeado por centenas de entrevistas com praticamente todos os envolvidos num dos momentos mais criativamente efervescentes - e controversamente tumultuados - que a produção norte-americana teve.

Se no passado figuras austeras como John Ford, Howard Hawks e Fritz Lang faziam seus grandes filmes de estúdio de maneira razoavelmente ordenada, o desbunde dos anos 60 e 70 - alavancado pela campanha dos EUA no Vietnã, os escândalos envolvendo o então presidente Richard Nixon, a liberdade sexual e a ascensão de um novo tipo de violência urbana - teve ecos caóticos em Hollywood. A decadência das megacorporações (Universal, Columbia, Paramount) e a perda de poder dos produtores fez com que filmes de orçamento mais modesto e realizadores "encrenqueiros", inspirados pela Nouvelle Vague francesa, tomassem a frente.

No livro de Biskind, dois nomes ecoam de imediato: Dennis Hopper, o maloqueiro-mor ("era violento e perigoso", diz uma de suas ex-mulheres), e Jack Nicholson, espécie de "coringa" que transitou de um lado a outro e soube muito bem o que escolher fazer. Mas Bogdanovich, Francis Ford Coppola, William Friedkin, Martin Scorsese, Hal Ashby, George Lucas e Robert Altman também protagonizam a saga de desencontros e brigas homéricas - com colegas, com estúdios, com atores - regadas a muito ácido e cocaína.

Chega a ser incrível constatar como, dessa balbúrdia, brotaram obras-primas do naipe de "O Poderoso Chefão", "Taxi Driver", "Operação França", "O Exorcista", "Amargo Regresso", "A Última Sessão de Cinema" e "Nashville", entre alguns tantos mais. Talvez tais filmes surgiram justamente por causa dessa balbúrdia - que era, afinal, o espírito da Nova Hollywood.

Biskind não poupa ninguém. Pautando-se por conversas ao longo de sua carreira, o jornalista - ex-editor da revista "Premiere" - lança todo tipo de informação (algumas bem infames) e deixa ao leitor escolher se julga cada figura citada ou simplesmente absorve o que lhe chega aos olhos. É compreensível, portanto, que o livro tenha gerado tanta controvérsia - o que talvez explique a demora de seu lançamento por aqui.

O que o livro de Peter Biskind revela não é necessariamente uma novidade. Na França, o movimento da “nova onda” (a Nouvelle Vague) já tinha desenvolvido esquemas independentes e autorais de produção, aproveitando-se de equipamentos mais leves, filmagens em locações e descompromisso com estúdios. A diferença da Nova Hollywood foi mais o nível de pirações dos realizadores e mesmo os orçamentos mais inflados, ainda que de padrões independentes.

E também o olhar sobre a própria forma de contar as histórias. Se a Nouvelle Vague queria quebrar qualquer ranço de classicismo, preferindo fazer dos filmes peças mais verticais (em que uma cena não necessariamente se referia à anterior), a Nova Hollywood manteve a narrativa clássica, porém potencializando suas características e imprimindo doses até então inéditas de violência, niilismo e desilusão.

Nunca o cinema dos EUA havia trabalhado com tamanha ousadia na forma e na temática, abrindo espaço para personagens anárquicos – na maior parte das vezes, assaltantes, andarilhos, chefões mafiosos, assassinos, padres pecadores – e sem pudores de expor ao público nudez, sexo e sangue. Biskind narra tudo isso como uma grande aventura, cheia de lances ora surpreendentes, ora empolgantes, alguns mesmo chocantes. A quem quer saber sobre essa fase, é hipnótico.

*Matéria originalmente publicada em O TEMPO no dia 16.1.2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Viver a vida

por Marcelo Miranda

Morto Eric Rohmer, não nos cabe ficar lamentando ou choramingando, mesmo tendo ele falecido em momento de intensa criatividade. Mas vão-se os cineastas, ficam seus filmes. E, na era das imagens, ficam também registros como os abaixo. São todos celebrações de vida e talento. No caso dessa turma aí, as coisas se misturam completamente.

Rohmer




Manoel



Godard

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Eric Rohmer (1920-2010)

sábado, 9 de janeiro de 2010

A Falecida, de Leon Hirszman



por Marcelo Miranda

Nada podia parecer tão distante, na efervescência político-cultural dos anos 60 no Brasil, do que a aproximação entre o escritor Nelson Rodrigues e a geração de diretores do Cinema Novo, capitaneada por Glauber Rocha. De um lado, o "reacionário" direitista, cuja obra se detinha nas agruras existenciais da classe média; de outro, realizadores de esquerda, com o propósito de lançar nas telas, através de imagens contundentes, as dores sofridas pelo povo mais economicamente frágil do país.

Desse embate, surgiu "A Falecida". Adaptado de uma peça de Nelson encenada em 1953 e primeiro longa-metragem de Leon Hirszman, o filme estreou nos cinemas em 1965. Quarenta e cinco anos depois, o trabalho chega ao DVD, pela Videofilmes, em versão restaurada digitalmente, o que permite a um novo público conhecer o ponto de partida da breve obra de Hirszman - o cineasta morreu aos 49 anos, em 1987 - e testemunhar, através um filme de força grandiosa, os conflitos ideológicos que pautaram o pensamento cultural brasileiro naquele complexo período.

"Foi uma das mais ousadas adaptações de um texto de Nelson Rodrigues. O Leon tirou muito do que a história tinha de espetacular e a tornou intimista", afirma Eduardo Escorel, um dos curadores do projeto de restauração dos filmes de Hirszman. "O próprio Nelson, na época, queria se aproximar de alguns cineastas identificados com posições políticas diferentes das dele".

A ousadia de Hirszman no trato com "A Falecida" é destacada pelo ensaísta Ismail Xavier no livro "O Olhar e a Cena" (2003). Diz o autor: "Ele [Hirszman] navega a contrapelo dos ‘lances ousados’ e descarta a velocidade e o ‘cinematográfico’ de Nelson Rodrigues. Evita a modulação tragicômica e opta de forma radical pelo sério-dramático, enfrentando bem o risco aí envolvido de lidar com a questão do trágico".

O que se assiste em "A Falecida" é, de fato, a derrocada de uma personagem (Zulmira, interpretada por Fernanda Montenegro em seu primeiro papel no cinema) cercada pelas próprias obsessões. Em vez de fazê-la uma alucinada passional, algo mais próximo de Nelson, Leon Hirszman a fez uma mulher bastante comum, alienada, autoindulgente - e não apontou dedos para possíveis culpados dessas condições.

"Há (...) um interesse na discussão das questões sociais (divisão de classes, o mundo do trabalho, o desemprego), e ele [Hirszman] tem diante de si uma situação em que os problemas de consciência e de mobilização política pautam-se por uma notória ausência no mundo das personagens", escreve Ismail Xavier. Se Nelson Rodrigues queria "denunciar" a própria protagonista como representação de uma classe média mentalmente falida, Leon Hirszman buscou uma espécie de provocação ao meio onde Zulmira transita.

Eduardo Escorel ainda reforça o caráter pessoal de "A Falecida" em relação a Hirszman: "Era um universo conhecido dele e sobre o qual o Leon acreditava que poderia falar e que o interessava: a zona norte do Rio de Janeiro (onde ele foi criado), a pequena vida de subúrbio, da sinuca, do futebol, de pessoas simplesmente vivendo. Era um projeto muito próximo do neorrealismo, ou de um pós-neorrealismo", diz Escorel. "Essa proposta de visão causou estranhamento no Nelson e no Joffre [filho do escritor e produtor do filme], e também uma certa tristeza por parte do autor".

Mudanças
Inicialmente, a adaptação a ser produzida por Joffre Rodrigues seria da peça "Senhora dos Afogados" (1947). Retornando de um período na Itália e impregnado pelo vírus do cinema, Joffre foi atrás de Glauber Rocha para fazer o serviço. "Eu tinha o dinheiro e o texto. Só precisava de alguém muito bom para dirigir. E quem era o grande nome no Brasil naquele momento? Glauber!", exalta ele, em entrevista registrada no DVD de "A Falecida".

Por questões ideológicas (a tal polarização da época), Glauber recusou a proposta. Hirszman, até então realizador de dois curtas documentais, foi convocado e levou junto o amigo Eduardo Coutinho, que seria seu roteirista. Assustados com a densidade mística de "Senhora dos Afogados", a dupla fez uma contraproposta: topariam a empreitada se pudessem adaptar "A Falecida". Joffre aceitou sem dificuldades.

Memórias.
A jornalista Maria Hirszman não era nascida quando "A Falecida" foi exibido nos cinemas, em 1965. Isso nunca a impediu de ter eleito este, por muitos anos, como o filme favorito realizado por seu pai. "Sempre o considerei um trabalho muito delicado e adoro os closes no rosto da Fernanda Montenegro", exalta Maria. "Quando eu tinha 15 anos, já achava impressionante que o meu pai o tenha dirigido com menos de 30 anos [Leon completou 27 anos durante as filmagens de ‘A Falecida’]. Quanto mais velha eu fico, mais isso me surpreende".

Sobre a audácia de Hirszman e Eduardo Coutinho em, às suas maneiras, subverterem os preceitos do universo de Nelson Rodrigues, Maria crê na interpretação de determinado trabalho: "Não precisa adaptar idêntico ao original. Há questões muito próximas ao Leon e que ele vai retomar nos filmes seguintes, como a mulher subjugada, a militância social e a loucura".

Maria se refere especialmente a "São Bernardo" (1972) e "Eles não Usam Black-tie" (1981), diferentes nas temáticas, mas próximos de "A Falecida" na visão autoral de Hirszman - desde serem também adaptações literárias (Graciliano Ramos e Gianfrancesco Guarnieri, respectivamente) à retratação dos personagens como figuras em constante digladiação com os espaços onde transitam.

Ismail Xavier, em ensaio no livro "O Olhar e a Cena", aponta nesse sentido como outra diferenciação entre a adaptação e o texto original: "A opção do cineasta (...) não corresponderia à preferência do dramaturgo, mas resultou numa das obras mais sugestivas criadas a partir de seus textos, original em sua inserção do corpo na composição do drama, dado o belo dueto entre câmera e atriz ".

Mesmo com o reconhecimento adquirido por "A Falecida" ao longo das décadas, o filme foi um fracasso retumbante quando exibido nos cinemas. O próprio Leon Hirszman, em entrevista reproduzida num livreto que acompanha o DVD, reconhece a receptividade ruim ao longa e aponta como uma das causas o mau lançamento no circuito carioca, numa semana de eleições. "Foi uma loucura, porque em época de eleição todo mundo só pensa em política", disse. " [Era] um filme que pretendia a comunicação com o público". Cotado para competir no Festival de Veneza, na Itália, o filme, segundo Hirszman, foi vetado, entrando apenas numa mostra paralela do evento internacional: "A política oficial estava contra o Cinema Novo".

O tom melancólico de "A Falecida" certamente não ajudou. Como escreveu o crítico Jean-Claude Bernardet em ensaio no livro "Brasil em Tempo de Cinema" (1967/2007), o filme " [nada] tem de alegria, nada de força de vontade. O marasmo, a estagnação, a decomposição das coisas e das pessoas, a impotência".

*Matéria originalmente publicada em O TEMPO no dia 9.1.2010

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Alguns melhores filmes de 2009

O ano acabou e, junto com ele, mais um ciclo de filmes. Alguns polvos resolveram revelar aqui as suas preferências entre os títulos assistidos em 2009. Confira abaixo.

Leo Cunha
1 - Bastardos Inglórios
2 - Gran Torino
3 - Amantes
4 - Coraline
5 – O equilibrista
6 - As ervas daninhas
7 - Entre os muros da escola
8 - Guerra ao terror
9 - Arraste-me para o inferno
10 - Se beber não case / Eu te amo, cara (empate técnicômico)

Ursula Röesele
1 - Aquele Querido Mês de Agosto
2 – Deixa Ela Entrar
3 - Inimigos Públicos
4 - A Fronteira da Alvorada
5 - O Lutador
6 - Moscou
7 - Valsa com Bashir
8 – Amantes
9 – A Troca
10 – Fronteira

Gabriel Martins
Amantes
Aquele Querido Mês de Agosto
Bastardos Inglórios
Entre os muros da escola
Gran Torino
Inimigos Públicos
Arraste-me para o inferno
Moscou
Ninho Vazio
No meu lugar

Marcelo Miranda
1) Amantes
2) Inimigos Públicos
3) Bastardos Inglórios / Guerra ao Terror (empate sem negociação)
4) Deixa Ela Entrar
5) Aquele Querido Mês de Agosto
6) Ervas Daninhas
7) A Troca
8) Entre os Muros da Escola
9) Valsa com Bashir
10) É Proibido Fumar

E você? Quais seus filmes preferidos no ano passado?

domingo, 3 de janeiro de 2010

Lula - O Filho do Brasil



por Marcelo Miranda


A cinebiografia Lula, o Filho do Brasil tem todo o potencial de arrebatar paixões e ódios. É previsível, porém, que as láureas e pedradas serão lançadas menos pelo filme do que pela figura que ele retrata. Trata-se do atual presidente da República, que entra 2010 no último ano de um mandato histórico e na busca ensandecida por eleger o sucessor (ou, muito provavelmente, a sucessora).

Como, então, separar Lula de Lula? A tarefa talvez pareça impossível. O irônico disso, porém, é que o próprio diretor do filme, Fábio Barreto, parece ter feito esse trabalho. O Lula surgido na cadência das imagens de seu longa-metragem guarda profundas semelhanças com o Lula da vida real - trata-se, afinal, de um filme inspirado numa vida -, mas nunca aparenta ser um personagem minimamente táctil. É muito mais um boneco articulado e audiovisual, que fala e anda de acordo com as necessidades de um roteiro (escrito a partir de um livro da jornalista Denise Paraná) e da obsessão de Fábio Barreto em fazer os sentimentos da melodramática trajetória de Lula virem à tona sob todo e qualquer aspecto, sem que o espectador precise, num instante que seja, duvidar ou questionar aquilo ao que assiste.

Muito se relaciona Lula a 2 Filhos de Francisco. A comparação é pouco procedente. O filme de Breno Silveira tinha uma evolução cumulativa, fazendo das desventuras de dois (a certa altura, três) irmãos cantores uma saga de vitória ascendente, em que um evento está concatenado ao outro. No caso de Lula, a preocupação está mais em inserir uma quantidade considerável de elementos da vida pregressa do atual presidente, mesmo que um não pareça se conectar ao outro. Duplo efeito: num filme cuja característica maior é o didatismo grosseiro, tem-se dúvida de captar os atropelos expostos no enredo.

Talvez o único momento de real coesão seja a morte da primeira mulher de Lula, "empurrando" o personagem ao sindicalismo. Mesmo aí, Barreto faz do protagonista uma espécie de figura iluminada e transformada: a barba cresce, a voz se modifica e a movimentação corporal ganha mais ginga. É tão gritante e pouco sutil que a impressão é de artificialismo. Esquecemos de um personagem e pensamos numa construção.

O importante em qualquer criação cinematográfica (seja ela baseada ou não nos famigerados "fatos reais") é tornar autêntica a experiência na tela. Autenticidade nada tem a ver com realismo, naturalismo ou coisa que o valha. Tem mais relação com o quanto o que nos chega através das imagens instiga e provoca algum diálogo com quem as assiste. Godard fazia filmes despirocados nos anos 60, e eram todos de uma autenticidade ímpar. Carlos Reichenbach faz sua operária de Falsa Loura cantar num mar de plástico, e a cena é de uma verdade cristalina.

É esse tipo de verdade que Lula não atinge, independente de quaisquer conotações políticas, preferências eleitoreiras, visão chapa-branca ou melodrama assumido. Tudo no filme (ou quase tudo) aconteceu de fato. Nada, porém, nos parece realmente acontecer na tela através daquele universo criado por Fábio Barreto para narrar a realidade. A emoção que eventualmente brota do filme se deve muito mais à noção inconsciente daqueles acontecimentos. Porque, cinematograficamente, não sobra muito.

(leia meu outro texto sobre o filme, escrito no Festival de Brasília)