sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Manoel de Oliveira: palavras faladas



por Marcelo Miranda

Quando se fala em Manoel de Oliveira, a tendência é destacar sua idade - ou, mais propriamente, a longevidade: o diretor português completa 101 anos no próximo dia 11 de dezembro. No caso de Manoel, a vida avançada em nada significa aposentadoria: ele acaba de lançar novo filme e já prepara um próximo, seguindo na carreira que já soma 30 longas-metragens e diversos curtas.

Um pouco da trajetória prolífica de Manoel de Oliveira vai ser atração do Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, do dia 2 a 12 de outubro, quando 16 filmes vão se revezar na programação. Entre os filmes selecionados pela curadora da sala, Maria Chiaretti, alguns já foram divulgados - como Viagem ao Princípio do Mundo (1997), Vale Abraão (1993), Inquietude (1998), A Carta (1999) e Non, ou a Vã Glória de Mandar (1990). Há ainda "filmes-surpresa", que Maria prefere omitir, por conta de liberações ainda pendentes. Mas, a contar as disponibilidades de cópias, deduz-se que podem ser Meu Caso (1986), Amor de Perdição (1979) e mesmo Aniki Bobó (1942), primeiro longa do diretor.

Se existe o que defina o cinema de Manoel de Oliveira, três elementos podem ser elencados: o tempo, o espaço e, principalmente, a palavra. Para o filósofo e ensaísta mineiro Mateus Araújo, que conhece toda a obra do cineasta, Manoel se destaca por representar algo de muito renovador no que se conhece de cinema moderno. "A palavra, em Manoel, deixa de ser um elemento subalterno, auxiliar e subordinado à dramaturgia para se tornar soberana", destaca ele.

Além dessa valorização da palavra, Mateus enxerga os filmes de Manoel também como renovadores da relação do cinema com outras artes, em especial o teatro e a literatura. "Ele alargou o tipo de trabalho com essas artes. Se existia um repertório de formas no cinema em relação a elas, Manoel renova essas formas, otimizando e potencializando a unidade espacial, a cena e a visualidade", afirma.

Mateus se refere ao característico estilo de Manoel de Oliveira de valorizar planos longos e fixos, diálogos contínuos e movimentação limitada dos atores dentro do espaço. "Numa forma cinematográfica tão inversa à dinamização que se costuma ver num certo tipo de cinema, algo até então 'proibido' e 'injurioso' - o chamado teatro filmado - é feito por Manoel no sentido mais nobre e sofisticado possível."

Por todas essas características, Manoel de Oliveira não se enquadra em nenhum movimento estético invocado pela história mais tradicional do cinema - e nem mesmo em algum "não-movimento". Cinema clássico, com narrativa linear e acúmulo de situações para desembocar num clímax e numa conclusão? Não necessariamente. Cinema "novo", com câmera na mão, filmagens nas ruas, personagens errantes e reflexão sobre o "estar no mundo"? Bem longe disso. "O trabalho dele representa momentos avançados da pesquisa estética mais radical", exalta Mateus Araújo. "Até hoje ele propõe modelos e estratégias de ponta, e a regularidade com que isso ainda acontece é impressionante. Cada novo filme acumula novas escolhas, arriscadas e corajosas."

Para o estudioso, a maior obsessão artística do cineasta é o destino histórico de Portugal - tanto em filmes que lidam diretamente com essa temática quando outros que a tangenciam. "Há uma exploração vasta da história e da geografia do país." Em paralelo, os filmes trazem forte referencialidade cultural. "Há um panteão de índices da tradição e cultura ocidental, como Shakespeare, Flaubert, Dostoiévski, Wagner e Beckett", diz Mateus.

Carreira
"São duas coisas que, com a idade, a gente perde: o cabelo e a memória. É pena porque vai-se o cabelo e, junto, vai-se a memória." As palavras de Manoel de Oliveira, em entrevista ao crítico Leon Cakoff para um livro em sua homenagem (lançado pela Cosac Naify em 2005), não dão conta da força do próprio cineasta. Os cabelos podem ter ido (mas ainda existem). A memória, porém, não apenas insiste em ficar, mesmo à beira dos 101 anos de idade, como se reconfigura em matéria-prima para um cinema especial.

A relação de Manoel com a memória está presente desde seu primeiro trabalho no cinema, ainda que sem intenção. O curta-metragem Douro, Faina Fluvial (1931) - previsto para ser exibido na mostra no Cine Humberto Mauro - documenta imagens da região onde Manoel nasceu e cresceu. "Douro é um filme feito na força da minha juventude, e hoje vejo nele um retrato desse vigor", diz o cineasta, na conversa com Cakoff. Poucas linhas abaixo, ele define o que seria seu cinema atual: "Faço filmes muito meditados, e o concerto das ideias é fruto de uma meditação profunda sobre uma certa sabedoria ganha com a experiência e um refinamento que os anos vividos nos dão."

Para o filósofo Mateus Araújo, a obra significativa de Manoel começa, de fato, nos anos 60, com Acto de Primavera (1963), lançado quando Manoel estava com 55 anos. "[O diretor] É um continente inteiro, não tem seguidores conhecidos, nem mesmo em Portugal", diz Mateus, que, ainda assim, aponta os cineastas lusitanos Pedro Costa e João César Monteiro como tributários de Manoel.

É sintomático que Manoel de Oliveira tenha passado dos 100 anos com vigor inacreditavelmente jovem - basta olhar qualquer foto ou imagem sua registrada nos últimos dez anos. Afinal, o prestígio mundial do português só se consolidou em definitivo a partir de Os Canibais (1988), quando ele já completava 80 anos. A continuidade do trabalho, marcado por intermitências (entre 1943 e 1955, por exemplo, Manoel não filmou), apenas passou a existir em 1980, tendo o cineasta 72 anos. Dali em diante, fez a média de um filme por ano, incluindo alguns dos mais incensados da carreira: O Sapato de Cetim (1985) - com suas monumentais sete horas de duração -, Meu Caso (1986), A Divina Comédia (1991), Vale Abraão (1993), A Carta (1999), Um Filme Falado (2003) e Espelho Mágico (2005).

O mais recente, Singularidades de uma Rapariga Loura, adaptado de Eça de Queiroz, teve estreia mundial em fevereiro deste ano, no Festival de Berlim [leia texto do polvo João Toledo, que viu o filme no Festival do Rio, aqui]. O próximo, "O Estranho Caso de Angélica", está em produção e é definido pelo próprio Manoel como sendo "uma história sobre o amor metafísico, para além do bem e do mal".

* A foto do alto mostra Manoel de Oliveira, aos 99 anos, saudando plateia em Cannes, após receber troféu pelo conjunto da obra, em 2008

**Matéria originalmente publicada no jornal O TEMPO em 2 de outubro de 2009

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