sábado, 6 de março de 2010

Sobre o Oscar 2010


Kathryn Bigelow, provável primeira fêmea a vencer o Oscar de direção

por Marcelo Miranda

No primeiro Oscar desde meados dos anos de 1940 em que a disputa a melhor filme se dá entre extensos dez indicados, são apenas dois títulos que chegam neste domingo, dia 8, à 82ª edição da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com chances reais de saírem vencedores.

Os dois favoritos não poderiam ser mais diferentes entre si. De um lado, o arrasa-quarteirão “Avatar”, direção de James Cameron (recorde de 11 Oscars por “Titanic” em 1998), orçamento de US$ 500 milhões, uso pioneiro das potencialidades do 3D, bilheteria mundial batendo US$ 1 bilhão. Do outro, “Guerra ao Terror”, direção de Kathryn Bigelow, orçamento de US$ 11 milhões, abordagem sem afetações ideológicas sobre o conflito no Iraque, bilheteria mundial de míseros US$ 20 milhões, 70 prêmios na bagagem desde o ano passado. Para dar um gostinho mais íntimo à disputa, Cameron e Bigelow já foram casados (hoje, são bons amigos).

A vitória de um ou de outro será, como sempre, um ponto de vista defendido pela Academia. Por menos que se leve o Oscar a sério (e suas cafonas cerimônias de premiação e toda a politicalha que acontece em seus bastidores dão motivos para o desprestígio), o vitorioso acaba por representar um norte ao qual a indústria norte-americana de cinema pretende se focar.

“Avatar”, sem dúvida alguma, é o filme que uma indústria em crise (como estava Hollywood) mais necessitava. “Avatar” fez as pessoas irem ao cinema, algo que ironicamente estava em baixa nos EUA – e, consequentemente, no resto do mundo (ocidental) – desde o advento das novas tecnologias de projeção doméstica. Os óculos 3D para assistir ao filme de Cameron podem ser incômodos, mas são o que de mais lucrativo Hollywood criou nos últimos tempos.

Se a Academia preferir “Guerra ao Terror”, estará coroando não apenas um filme independente feito com recursos europeus (nenhum estúdio dos EUA quis financiá-lo). Seria, também, a consagração pública de uma carreira consistente, porém errante. Kathryn Bigelow nunca foi chamariz de público; alguns de seus filmes (“Caçadores de Emoção”, “O Peso da Água”, “K-19”) eram mais conhecidos que seu nome – muito por ela trabalhar na chave do cinema de gênero (ação, policial, suspense, guerra), visto com maus olhos por quem acredita que a autoria de uma obra está no fato de ela ser explicitamente distinta de qualquer outra coisa existente.

Se Bigelow levar o Oscar de direção, fará história, sendo a primeira mulher a sair vencedora na categoria. Premiar “Guerra ao Terror” representa, também, atitude corajosa, por se tratar de um filme sobre um momento controverso da história recente norte-americana tratado sem nenhum tipo de discurso ou tomada clara de posição. É uma realização visceral, em que o corpo humano importa muito mais que a mente, e nisso está um dos maiores fascínios proporcionados pela experiência de se assistir ao longa (não por menos, o título original, “The Hurt Locker”, pode ser traduzido como “armário da dor”).

Caso os votantes não se decidirem por maioria e se polarizarem, as zebras dariam uma emoção inesperada à festa do Oscar. Nessa hipótese, sobram chances para “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino, e “Preciosa”, de Lee Daniels. Nas disputas de atores, é mais um ano de barbadas. Dificilmente Jeff Bridges (“Coração Louco”) e Sandra Bullock (“Um Sonho Possível”) saem de mãos vazias. E a produção alemã “A Fita Branca”, de Michael Haneke, deve levar o prêmio de filme estrangeiro, seguindo a Palma de Ouro em Cannes, na França, e o Globo de Ouro, nos EUA.

*Originalmente publicado em O TEMPO no dia 7.3.2010

Um comentário:

Leonardo disse...

Ainda não entendo a ausência de A Serious Man.

Abs.,
Leo