domingo, 16 de maio de 2010

O novo de Woody Allen em Cannes

por Marcelo Miranda

O sábado na Croisette foi tomado por Woody Allen. O norte-americano dominou todos os holofotes e flashes possíveis, nesta edição do festival marcada pela falta de títulos com grandes estrelas midiáticas e hollywoodianas (para desespero dos paparazzi e repórteres de celebridades). No caso do filme de Allen, não faltou glamour, especialmente pela presença das atrizes Naomi Watts e Lucy Punch e do ator Josh Brolin. Todos vieram para a exibição, fora de competição, de "You Will Meet a Tall Dark Stranger", 44º filme dirigido por Allen.

Após a primeira sessão mundial do longa, mal terminaram os créditos e a multidão de jornalistas correu para a sala de imprensa, onde Allen e elenco falaram sobre a produção. O filme é mais uma comédia melancólica de Woody Allen, mostrando a ciranda de vários casais de distintas gerações tentando atingir alguma felicidade no amor. Diferente do que possa parecer à primeira vista, o longa tem como mote central a desilusão e a velhice.

O próprio título, "You Will Meet a Tall Dark Stranger", tem conotação dúbia, como frisou Allen: nos EUA, a frase serve como expressão popular dirigida a mulheres esperançosas de conseguir uma paixão ("você vai encontrar um moreno alto") e também pode soar como uma maneira de expressar a chegada da morte.

Como é praxe, Woody Allen, 74, apareceu em Cannes cheio de tiradas irônicas, quase todas de pegada pessimista. "Se eu encontrasse os personagens desse filme numa festa, por mais tolos que eles sejam, certamente eu estaria bem mais infeliz do que eles", disse, logo na primeira resposta a um repórter. "Não sou eu quem disse, mas Nietzsche ou Freud: as pessoas precisam de ilusão para viver e, por causa disso, passam a pregar pequenas mentiras no seu dia a dia".

Cineasta fortemente vinculado a Nova York, em "You Will Meet a Tall Dark Stranger" ele volta a filmar na Europa - e de novo em Londres. "O principal motivo está nos custos, é bem mais barato", afirmou. Há boatos de que Allen esteja se preparando para filmar no Rio de Janeiro, mas nada foi dito na entrevista.

E MAIS
Para além dos filmes em exibição no festival até o dia 23, uma série de controvérsias tem cercado alguns dos realizadores que estarão em Cannes nesta semana. O russo Nikita Mikhalkov, cujo “O Sol Enganador 2” (sequência de um filme dele mesmo, premiado em Cannes em 1994) compete aqui, tem rebatido questionamentos sobre sua suposta simpatia pelo controverso governo da Rússia atual. No país, um grupo de cineastas e críticos circulou petição contra Mikhalkov, intitulada “Não o queremos”.

Já o iraniano Abbas Kiarostami, competindo com “Copie Conforme” – e já vencedor da Palma de Ouro com “Gosto de Cereja” (1997) –, deverá estar preparado para responder a perguntas sobre sua omissão a respeito da prisão do colega conterrâneo Jafar Panahi (diretor de “O Balão Branco”), preso há meses por declarações contrárias ao regime do Irã.

Desde o ocorrido, Kiarostami não deu nenhuma palavra sobre o assunto, num momento em que a comunidade cinematográfica mundial tem feito declarações e abaixo-assinados a favor de Panahi. Por sua vez, o franco-argelino Rachid Bouchareb – realizador de “Outside of the Law”, na competição – despertou a ira de representantes do governo francês, que viram no longa, cujo tema é a polêmica relação entre a Argélia e a França no pós-Segunda Guerra, “erros e anacronismos tão numerosos e óbvios que podem ser apontados por qualquer historiador”. (MM)

Um comentário:

Davi disse...

sobre kiarostami e panahi rolou uma carta aberta a algum tempo: http://thelede.blogs.nytimes.com/2010/03/09/iranian-filmmaker-speaks-out-on-prisoners/