sábado, 11 de julho de 2009

o que acontece com nossos festivais?

por Marcelo Miranda, de Paulínia (SP)

Conversa de pé de ouvido entre alguns jornalistas e críticos presentes no Festival de Cinema de Paulínia dão conta de que o evento não parece muito estimulante para além de se conhecer os filmes que aqui estão sendo exibidos. De fato, até o momento, com três longas e dois curtas apresentados, o cenário é meio desolador. Os colegas Francis Vogner, da Cinética, e César Zamberlan, do Cinequanon, também aqui presentes, comentaram do assunto em seus respectivos espaços.

Eu amplio a impressão: a modorria tem dominado os festivais de cinema brasileiros quase como um todo. Tenho rodado por vários deles ao longo do ano, e a impressão é de que o conflito, o choque, o encantamento possível de ser proporcionado por um filme tem dado lugar a brigas de alcova, curadorias comprometidas com outros elementos que não o cinema, festas e coquetéis incessantes, debates marcados por muita informação e pouca reflexão (as mesas têm se tornado bancadas para os realizadores desfiarem todo o processo de concepção dos filmes, tornando tudo uma espécie de revista de bastidores administradas por via oral) e - certamente o mais grave - filmes pouco estimulantes a quem busca algo maior que o feijão-com-arroz ou o "bem realizado".

Não se questiona, aqui, a qualidade técnica dos filmes. À Deriva, de Heitor Dhalia e longa inaugural de Paulínia, é impecável - e, muito por isso, quase insuportável na obsessão em parecer artístico, delicado, sensível, fofinho. Faltam, no geral de vários dos festivais recentes, ousadia, risco, afrontamento. Faltam sacudidas que espantem o marasmo estético e narrativo. É preciso parar de ter medo ou de se acomodar nas facilidades de um tema "relevante" ou passível de condescendência.

É claro que existem as exceções. O Festival de Brasília 2008 só se tornou menos entendiante porque havia FilmeFobia - que, goste-se ou não, provocou calorosas reações - e Tudo Isto me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno, que infelizmente não teve nenhuma outra repercussão depois do fim do evento. Porém, o Cine PE, em Recife, foi dominado por produções no máximo medíocres, e é sintomático que o vencedor tenha sido Alô, Alô Terezinha, de Nelson Hoineff, que aposta na ridicularização de seus entrevistados e parece se refestelar nas risadas incessantes de uma patuleia de espectadores dispostos a debochar da humilhação alheia. Gramado nem tenho muito a comentar: ainda que tenha premiado nos últimos anos Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, e Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais, de Carlos Alberto Prates Correia, isso em nada ajudou na visibilidade dos filmes dentro do circuito ou sob o jugo do espectador - e pareceram vitórias muito mais na tentativa de trazer alguma seriedade ao já patético evento-Gramado do que propriamente fazer dele vitrine relevante da produção.

Aqui em Paulínia, já tivemos, além da assepsia de À Deriva, o documentário Caro Francis, novamente de Hoineff, e a ficção O Contador de Histórias, de Luiz Villaça. O primeiro se sustenta numa visão torta do que foi o controverso jornalista Paulo Francis e tem momentos de real constrangimento - um cachorro de cabeça para baixo surge no plano enquanto Sérgio Augusto fala do perfilado; um gato de estimação praticamente ganha um curta-metragem só para ele dentro da estrutura em blocos do filme; entrevistados são ridicularizados ou diminuídos no que falam, em contrapontos a outras pessoas ouvidas; e por aí vai. Já o filme de Villaça (sobre personagem real que saiu da Febem, foi educado por uma professora francês e se tornou pedagogo) é todo bonitinho, bem contadinho, honestinho e igualmente bobinho. É inofensivo sob todo e qualquer aspecto - e não há mal algum nisso, exceto o de que, após o filme, não se retém nada muito significativo.

Hoje tem um documentário sobre os Mamonas Assassinas e a nova ficção do Moacyr Góes, Destino, coprodução com a China. Salvo reviravolta que teria tudo para provocar uma fissão nuclear sacolejante, será mais uma noite em que o assunto do jantar será se a carne está muito ou pouco salgada.

PS: há de fazer justiça à Mostra de Cinema de Tiradentes. Já faz 12 anos que a pequena cidade mineira se torna, em janeiro, um verdadeiro oásis de novidade, inventividade e surpresas, dando prioridade a cineastas jovens ou a trabalhos de verdadeiro risco, sem, com isso, cair n'algum nicho ou caixinha que o transforme num evento "cabeçudo". Tanto é que as sessões ficam entupidas, assim como os debates, e o fato de os espectadores rotineiramente terem algum tipo de reação mais exacerbada na relação com os filmes (especialmente após as sessões) demonstra que alguma coisa sempre acontece em Tiradentes.

Um dos vários aspectos da mostra, desde seu começo, é o de pensar a curadoria não como os filmes em que os selecionadores mais gostam, mas, sim, os que eles acham mais importantes de serem apresentados a uma plateia, sejam por quais motivos ou critérios forem. É uma outra perspectiva, que deveria servir mais de exemplo.

4 comentários:

El Cabrón disse...

Bem, se o panorama para as pessoas da escrita do cinema é esta, Marcelo, aos que realizam também fica o ar de "não entendi qual é a do festival".
Quando inscrevi meus curtas e estes não foram selecionados, amigos da critica que conhecem meu trabalho disseram: - cara, não sei porque o seu não entrou, só tinha coisa ruim lá.
é uma pena porque a ta, primeira banca probatoria não se sabe quem legitima.
Parece uma troca de favor entre coronéis, uma pena!
Minhas espernaças sempre caem em Tiradentes tb!
Mas neste Paulinia vocês terão o curta Milimetros do Erico RAssi, espero que gostem!

Marcelo V. disse...

Em geral os festivais de cinema daqui estão muito desacreditados. A seleção costuma ser fraca, e certas premiações, escandalosas. É raro ver um júri de gente que realmente entende do riscado. Desestimula bastante o envio dos filmes para esses eventos e faz pensar que o caminho é exibir na internet, o que é triste por causa da má qualidade da imagem, da telinha minúscula...

Murilo disse...

E o que foi Destino, ontem? Pra Moacyr Góes, retratar a China é encher a trilha de flauta e bumbo e fazer os monges falarem inglês. O poço parece não ter fundo mesmo.

Marcelo Miranda disse...

Murilo, veja o post seguinte.